julho 23, 2009
A dieta do pensamento
“Quando um homem tem a boca cheia de comida, impedindo-lhe comer (...) como se conseguirá fazê-lo comer: enchendo-lhe a boca ou tirando um pouco de comida? Do mesmo modo, quando um homem sabe muito, quando sua sabedoria tem nenhuma importância para ele ou age como se não se importasse nem um pouco, o que é razoável: levar-lhe mais conhecimento ainda, (...), ou tirar-lhe um pouco?”
Redón diz que a dieta do pensamento recomenda assim, que não comer é a única maneira de continuar comendo. Com a boca cheia não se pode comer, assim como com o cérebro embutido de idéias não se pode pensar.
Kant diz algo semelhante, sobre a necessidade da pausa: “A mente se nega, de certo modo, a continuar trabalhando, mas permite ocupar-se de outras coisas. Perceber isso é parte da dieta do pensamento”.
A cozinha do pensamento: um convite para compartilhar uma boa mesa com filosofos. Josep Munoz Redon. Ed. SENAC
julho 14, 2009
Avulsa(s)
Nas missões jesuíticas (séc. XVI-XVII) as mulheres não podiam ficar avulsas, foi concebido um edificio especialmente para elas. Uma das aplicações do panóptico de Benthan era "abrigar" mães solteiras, tal como prisioneiros(as)...
julho 10, 2009
Todo anjo é terrível

"Todo anjo é terrível. Mesmo assim - ai de mim - vos invoco, pássaros quase fatais da alma sabendo quem sois."(...) Rilke
“É preciso conceber ou imaginar como voa e se desloca Hermes, quando ele transporta as mensagens que lhe confiam os deuses – ou como viajam os anjos. E, para tanto, escrever os objetos que se situam entre as coisas já observadas, espaços de interferência (...).
Esse deus ou esses anjos passam no tempo dobrado, daí surgindo milhões de conexões. A preposição ‘entre’ sempre me pareceu e continua parecendo para mim uma preposição de importância capital” Michel Serres
junho 28, 2009
Michael Jackson: estranhamente familiar

Esquisito de se ver, um efeminado esbranquiçado. Dizem que era frágil, frágil, vozinha fraca quando falava e que crescia no palco. Grande criador de gestos, passos de dança, letras e músicas. Outro monstro bizarro que não cabia no mundo dos normais demais. Eu compreendi isso, porque também sou monstra. Não gostava da maioria de suas músicas (demasiado pop? sei lá porque), mas admirava sua dança. Ele tinha o direito a ser da cor e do gênero que bem entendesse, desde que não invadisse sonhos alheios ou os limites alheios. Aos meus 10 anos ouvia Ben, e entronizou em mim, Ben...
"(...)
Ben, most people would turn you away
(Turn you away)
I don't listen to a word they say
(A word the say)
They don't see you as I do
I wish they would try to
I'm sure they'd think again
If they had a friend like Ben
(A friend)
Like Ben
(...)".
junho 04, 2009
eu gosto de ...
Eu gosto de rir com vontade de rir. Gosto de ter esperanças, gosto de crianças, de bichos, de nadar, de areia da praia, de vento e maresia, de florestas, de espaço, de coisas muito usadas, das marcas do tempo nas coisas, das marcas do tempo no rosto das pessoas, de salada, de sopa, enfim, de comida quente e de cerveja gelada. Pois, vinho eu amo. Adoro praças cheias de gente, gosto de falar, interrompo, mas sinceramente não gosto quando faço isso.
Gosto do outono, do inverno e da primavera, só gosto do verão em dias de chuva rala e dos seus fins de tarde depois das 18 horas à beira mar. Gosto de Itaúnas, do centro de Vitória, de São Paulo, do centro do Rio de Janeiro, de Barcelona, de Nova Iorque (nem conheço), gosto de muitos pensadores, gosto de muita gente que já morreu. Gosto de abraço, de carinho de quem eu amo, que me passem a mão nos cabelos, de massagem. Gosto de montanhas e de pedras. Gosto de perfumes e de batons de várias cores, de roupas que se ajustem discretamente ao corpo. Sou fissurada em sapatos e bolsas, confesso que leio Vogue decoração (sou uma perua incubada com certeza)
Amo pessoas que gostam e se dedicam ao seu trabalho, detesto exploração de todo tipo e “puxada” de tapetes. Não gosto de quem conte vantagens ou humilhe os outros o tempo todo nem de quem fala muito alto. Para petulantes gostaria de não ter tempo. Não sei se amo a vida o tanto que deveria (para ter gratidão por esta jornada), mas não quero perder esta oportunidade de jeito nenhum...
maio 31, 2009
maio 26, 2009
prato que se come frio é insosso
Não se esquece alguém porque se quer esquecê-lo, o sentimento, seja o nome que se dê quando se está quase vazio, só vai embora quando finalmente chegou ao fim. O esquecimento ainda não é o fim, esquecer é apenas deixar cair... e demora... é como se fosse na gravidade da lua...
É o tempo sobre o tempo, a vida que segue que permitirá enfim transformá-lo num vácuo; não ter nada a ver. Ao estranhá-lo verdadeiramente eu poderia me sentir livre.
E enfim a vingança, eu sei por que já vivi, como prato que se come frio, completamente insosso, não tem nenhuma graça... é apenas lembrança de um tempo desperdiçado.
maio 10, 2009
maio 05, 2009
Uma história romântica
Então ele sumiu, nos primeiros dias ela se deu conta e ficou na dela. Uma semana foi demais, ela saiu perguntando por ele e ninguém sabia dele nas imediações nem em outras paragens aonde ele poderia estar. Ela mesma saiu procurando pelos terrenos da Enseada do Suá (Vitória, ES) e achou ele morto de frio há quase uma semana num terreno baldio. Ela fez o enterro dele.
abril 22, 2009
Envelheço na cidade
Assim não nasci predestinada a ser par de homem nenhum, sabendo que não seria nem escolhida nem bela, fui à minha a guerra particular, fui a universidade e nunca sai de lá: “eu sempre fui jovem”.
É uma espécie de clausura essa, aonde está o lado de fora? a porta aonde está? que não acho ...
“Envelhecer na cidade” é uma tarefa penosa, mas não vou ser jovem para sempre, este é um bom momento para encarar a vida...
abril 18, 2009
meu caderninho de vergonhas

abril 04, 2009
carta a um ex amor
O que pode gerar uma carta a um ex amor, a quem recorda as suas delícias inesquecíveis? Era uma carta meiga sim, sem intenções explicitas inicialmente, apenas se comunicar. Mas em desespero contido, sim aspirando uma definitiva ruptura, secretamente rogando indiretamente ao deus destino que alijasse daquele sentimento cada vez mais inominável e fugaz.Esscrita em 22 de fevereiro de 2008
É plausível se dialogar sobre o fim? se reflete sobre o fim? que finalidade? Não seria melhor simplesmente seguir em frente sem mergulhar a calda do rio quase no fim da travessia? Infortúnio? Olhar pra trás e virar estátua de sal. Para que prorrogar um mal estar? Há males que vem para o bem.
O pior é ter as palavras distorcidas. Ou eu não sei mais escrever ou ele não sabe ler, das duas uma, apenas uma. "Não coloque palavras na minha boca, nem mulheres na minha vida nem maridos e esposas" uma letra que faz sentido para mim.
No fim depois do diálogo inteiro tenho agradecimentos a fazer: a bruxa Ana pelos florais que deram eixo e visão extra (seja lá o que eu vi); a minha mãe pelas orações e pragas; ao I ching pelo conselho-aviso sobre eu estar caçando no campo errado; e principalmente estou grata à ilusão de ter visto a pomba gira rondando o cara e ter fugido covardemente.
Agradeço também ao destino por não ter ido a uma certa festa em dezembro, preferiria entrar no ninho de najas. Agradeço ter tido juízo e ter saído sempre na hora certa da sua companhia; a solidão me cai bem. Agradeço também as mulheres que por último se tornaram suas companheiras que me livraram do seu ego vaidoso e presunçoso, dos seus equívocos reincidentes. Elas me livraram, especialmente, de te achar engraçadinho que cansaaaa demais.
As vezes suas saídas eram geniais, mas eram muito raras, raras demais para apostar em segurar vela, que idéia descabida!!! Prefiro segurar um fio desencapado,,, Pare de se achar, rapaz.
Respiro agora livremente, em meu sorriso não pesa a saudade e nem a inveja. A solidão me cai bem... Doravante não vou perder mais meu tempo nem tomar ou desperdiçar o dele também, pois ninguém merece.
Me torno doravante uma máquina celibatária involuntária até que outro engraçadinho apareça...
visite comunidade no orkut: celibatários involuntários
abril 01, 2009
Aqueles belos olhos se tornariam braços?
Aqueles belos olhos se tornariam braços? Lábios? Fluidos? e pernas?
Mãos de outros, muitas mãos tentaram me prender, mil mãos e braços me abafando. Sou descrente de quem me prende quando estou de passagem ou quando quero pensar. No meio disso, não estou realmente livre ...no entanto não tenho aonde me sinta acolhida, não tenho lugar. Durmo toda noite no sofá, acordo de madrugada. Perdi o sorriso que eu tinha readquirido, perdi um pouco o rumo, mas eu sei...
Disse Baudelaire a sua passante;
"(...) olhar me fez renascer de repente, Só te verei um dia e já na eternidade?
Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente! Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais, Tu que eu teria amado - e o sabias demais!
fevereiro 28, 2009
Sobre o perdão ou não, melhor o esquecimento
‑ Você está morto. Eu te matei.
O cara pior ainda retruca:
‑ Hum, hum (balançando a cabeça negativamente). Estou vivinho no teu desejo de me matar novamente,,,
Seria um momento oportuno para Nancy Sinatra cantar: “My baby shot me down, bang bang...”. Mas o cara pior ainda, mais do que entediado pergunta:
- Quantas vezes terei de morrer para me livrar de você, você me cansa?
A trilha sonora transtorna-se de repente " China canta:
"A partir de agora tudo é mais claro pra mim. Agora percebi que vc não passa de um espaço aberto na multidão. Eu não vou mais te procurar... [mas] eu vou seguindo, colocando sal nas feridas,,, vc vai sumindo, desaparecendo feito foto velha".
Antes que amúsica termine, o cara mau se torna pior ainda, acende um cigarro e diz cantando outra música do China:
_ Por hj vc não morre mas amanhã quem sabe...
Eu escrevi o diálogo acima inspirada em dois contos, o primeiro de Wilson Bueno sobre duas cobras autênticas que se encontram uma simpática perguntadeira e uma meio blasé, resignada na sua condição de cobra venenosa. Sem demonstrar simpatia esta se mantinha cobra, em plena pose a cobra fingida nhacc nela. Ela só queria muito mostrar de antemão quão cobra ela era,,,, e depois vi que por inversão meu textinho relaciona-se ao conto de Caim e Abel de Jorge Luis Borges, neste os dois irmãos se perdoam, como deveria ser, afinal.
“Caim e Abel encontraram-se depois da morte de Abel. Caminham pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, acenderam um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu assomava uma estrela que ainda não tinha recebido seu nome.
À luz das chamas, Caim percebeu na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava prestes a levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado seu crime.
- Tu me mataste ou eu te matei? – Abel respondeu.
– Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.
- Agora sei que me perdoaste de verdade – disse Caim – porque esquecer é perdoar. Procurarei também esquecer.
- É assim mesmo – Abel falou devagar. - Enquanto dura o remorso, dura a culpa”.
fevereiro 24, 2009
só não quero deixar nada pra depois
"Quero esquecer da vida pra viver o amor, ..., não precisa dizer nada pra não se arrepender, tem certos momentos na vida que o silêncio é melhor,..., peça pra que o dia não chegue pois vc me encontrou, esta noite vc vai ter que ser minha... nem que seja desta vez e nunca mais... só não quero deixar nada pra depois ..."Não sinto tédio, lembro dos rádios tocando nas cozinhas, das fotonovelas com galãs italianos, dos parques de diversão na periferia, seus carrocéis e rodas gigantes, das músicas dedicadas pelo alto-falante,,, as músicas provocam meu riso solitário, meu canto divertido, me recordam minha origem (deslocada). Provocam o esquecimento do que preciso esquecer urgente...
Hoje é terça de carnaval, tenho que trabalhar e fico ouvindo Diana e Odair José...
fevereiro 22, 2009
fevereiro 01, 2009
Parábola dificil de escrever ...
Perguntei ao oráculo se devo prosseguir com o retorno ensaiado, ele disse primeiro que devo me desarmar, descer da montanha, contudo o movimento em direção a união deve ter as regras claras. As coisas em seu lugar, os nomes próprios das pessoas e cada qual no seu lugar próprio. Pois sem retidão no final pode ocorrer um desastre. ...
Meu coração diz que não, não, não, não há clareza suficiente; não é hora, e pode ser que o momento tenha sido perdido para sempre...
Sentença: "A União entre os Homens, às claras, traz sucesso. É propício atravessar a grande água. O homem superior sabe que não pode relaxar sua retidão."
Comentário: "Alguma coisa suave tem poder de influência (linha fraca no lugar central) e responde à força criadora (linha forte e central do Criador). Isto quer dizer: 'A União entre os Homens, às claras, traz sucesso'. O trigrama indicando beleza e claridade é apoiado por aquele que representa a força: este é o trabalho do princípio criativo. A linha central do Criador simboliza o sábio. Só ele pode compreender e influenciar a vontade de todos os povos da Terra."
Imagem: "O Céu e o fogo juntos formam a União entre os Homens. De acordo com isso, o homem superior estrutura a sociedade e distingue as coisas conforme suas espécies e classes."
janeiro 08, 2009
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos ...
isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos... isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida... isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.
Francisco Buarque de Holanda






