julho 19, 2010

Angelus caído e o espelho mágico

Minha alma de criança chora - eu que disse que não tinha sido uma criança feliz!
Uma criança de quarenta, inábil, incapaz para vida prática e pragmática, que sente vergonha de sua moratória interminável.
Essa minha alma de criança se parece com o angelus de Benjamin - enquanto o anjo olha para tras melancólico, ventos fortes o atiram em direção à vida adulta.
Não posso mais delirar, só me era possível quando meu corpo era jovem e são.
No espelho vejo uma pessoa cada dia mais velha e no cotidiano convivo com algumas pessoas adultas consideradas muito racionais. muito razoáveis e bem sucedidas que não passam de crianças indóceis, pirracentas, impertinentes, intratáveis.
Finalmente sou adulta, me sinto adulta por contraste. Se eles são infantis eu não sou.
Ah! mundo de espelhos invertidos, diria Foucault!

julho 03, 2010

Um Passo em Frente Dois Passos Atrás

"Um Passo em Frente Dois Passos Atrás" foi escrito por Vladimir Ilitch Lenine em 1904.
É minha vida.
Há um capítulo neste texto, chamado: "Pequenas Contrariedades Não Devem Prejudicar um Grande Prazer". Ham. O que?
"(...) O Que não se deve fazer é que, em política, não se deve ser rectilíneo, inoportunamente áspero e inoportunamente intransigente,(...)".
"(...) "um dirigente do proletariado não tem o direito de ceder às suas inclinações combativas quando estas são contrárias aos cálculos políticos", (...)".
Uhhh!!!! pense sobre isso. Tenho que fazer planos, projetos pessoais,,, to estudando Lenin (estratégia)."É a minha vez de falar. "...
Meus lindos: chega de trair minha via como diz Maria Rita Kehl no seu livro "o tempo e o cão"
to em processo de construção deste texto!!!

junho 24, 2010

Camelo fêmea revoltado

Dizem que o camelo morde, dizem que ele fede, ele provavelmente empaca. Mas um camelo revoltado vc já viu? Nietzsche com certeza não viu mas previu.

"Vou dizer-vos as três metamorfoses do espírito: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.
Há muitas coisas que parecem pesadas ao espírito, ao espírito robusto e paciente, e todo imbuído de respeito; a sua força reclama fardos pesados, os mais pesados que existam no mundo.
'O que é que há de mais pesado para transportar?' — pergunta o espírito transformado em besta de carga, e ajoelha-se como o camelo que pede que o carreguem bem.
'Qual é a tarefa mais pesada, ó heróis' — pergunta o espírito transformado em besta de carga, a fim de a assumir, a fim de gozar com a minha força?"
(...)
"Mas o espírito transformado em besta de carga toma sobre si todos estes pesados fardos; semelhante ao camelo carregado que se apressa a ganhar o deserto, assim ele se apressa a ganhar o seu deserto."

Nietzsche "Assim falou Zaratustra".

junho 10, 2010

camelo desidratado

Meu princípio básico sempre foi crer que viria um dia, mas eu nem imaginei o que aconteceria neste dia (que bom que não perdi tempo com isso). Continuo com a doença do otimismo, é crônica agora e tem me cegado, e tem me tornado um camelo desidratado com dor nos quartos e nas salas.
Se eu tivesse o pessimismo teórico talvez tivesse estudado algo assim como fungos ou bactérias, ou o manuscrito de algum filósofo obscuro com entusiasmo, daria menos horas aula, teria menos livros na estante que não se envergariam com o tempo, me dando a despesa de ter que comprar novas.
Se eu fosse uma especialista eu seria feliz, pois, teria todos meus neurônios alinhados. E saberia qual pesquisa fazer no próximo semestre, que livro ler amanhã. Viveria na friagem do laboratório ou na sombra de um árvore não precisaria de filtro solar nem de óculos. Talvez não esquecesse de pintar os cabelos e teria mais amigos...otimismo prático é “fé na vida” ou no homem?.

maio 28, 2010

o tipo de aparição em que acredito

As lembranças que tenho do meu avô são afins a algumas cenas de filmes de Fellini. A mais linda se passa em Vale Encantado, no Município de Vila Velha- ES, quando este era realmente encantado.
Meu avô me levou em seu FNM ao lindo areal, extenso. Na minha lembrança o lugar é uma borda entre o areal e o inicio de um loteamento muito desabitado. As casas salpicadas, muito distantes entre si. Uma visão: numa rua inusitada no meio do areal, sem uma construção sequer, mais inusitada ainda, surge uma trupe de circo.
Um circo muito mambembe, um palhaço maltrapilho, um homem de perna de pau, mais uma ou duas pessoas vestidas com roupas de circo, acompanhadas por um caminhão muito antigo, um homem com megafone anunciava a redundante frase “hoje tem marmelada, tem sim senhor. hoje tem goiabada, tem sim senhor. E o palhaço o que é? É ladrão de mulher!!!!”.
Um filme de Fellini se aproxima e figurativiza o meu encantamento, meu deslumbramento, de menina de 7 ou 8 anos com aquela visão. O encontro daquela trupe com a imagem daquele areal branco neve, a areia que o vento levantava em grãos muito finos, superpondo a paisagem azul e rosa desse pontilhismo branco.O mesmo encantamento que causa uma cena de Julieta dos Espíritos. A cena da chegada da sua vizinha e convidados à praia. O comentário de Rafaello enuncia: “Isso sim que é uma aparição. É o tipo de aparição em que acredito ...”

Há uma música, que Cássia Eller canta, que me reevoca esse dia em Vale Encantado, a música “Maluca”:
“(...) Foi minha irmã quem me chamou pra ver. Era um caminhão, era um caminhão Carregado de botão de rosas. Eu fiquei maluca. Por flor tenho loucura, eu fiquei maluca. Saí . Quando voltei molhada Com mais de dúzias de botão (...)”.

Meu avô me proporcionou isso... as melhores lembranças que tenho da minha infância.

fevereiro 18, 2010

A minha Lília Brick

porque eu te olhava e você era o meu cinema, a minha Scarlet O'Hara, a minha Excalibur, a minha Salambô, a minha Nastassia Filípovna, a minha Brigite Bardot, o meu Tadzio, a minha Anne, a minha lou Salomé, a minha Lorraine, a minha Ceci, a minha Odete de Crécy, a minha Capitu, a minha Cabocla, a minha Pagu, a minha Barbarella, a minha Honey Moon, o meu amuleto de Ogum, a minha Honey Baby, a minha Rosemary, a minha Marlin Monroe, o meu Rodolfo Valentino, a minha Emanuelle, o meu Bambi, a minha Lília Brick, a minha Poliana, a minha Gilda, a minha Julieta, e eu dizia a você do meu amor e você ria, suspirava e ria. (Arnaldo Antunes,Psia)

fevereiro 07, 2010

A ex-punk e o pagodeiro

Ele a levou pra passear de moto e ela gostava de velocidade. Ele disse que gostava de mulheres mais velhas. Ela tinha a idade adequada. Ele disse que ela tinha o peso ideal, ela discordou. Por via das dúvidas apertou na dieta. Ela tem quatro gatos e avisou desde o primeiro dia. Ele entendeu que ela tinha quatro namorados e achou que ela era doida. Ela gosta de usar preto e é toda básica (exceto algumas florzinhas e acessórios), ele usa cordão de ouro (daqueles pesados) e muito perfume. Contudo ela gostou do cheiro dele. Ele acha horrível fumar maconha mas já chegou muito bêbado na casa dela. Ele ouve sertanejo, ouve duplas das quais ela nunca ouviu falar. Ela ouve bandas que ele vai detestar. Ela lê coisas que ele nem desconfia, ele faz estantes. Ela achava que iria ao samba com ele, porém tem sambado sozinha. Ele acha a comida dela sem sal. Ele foi vegetariano, agora come carne enquanto ela tenta ser vegetariana. Ele marca e não vem. Ela marca e sai de casa. Ele se declara apaixonado e ela vai a analista. Mais desencontros do que encontros. O telefone dele paraguaio-chinês tem dois chips, porém nunca funciona direito. Ela diz que não tem preconceitos, ele tem alguns com certeza. Para ele existem verdades, para ela é tudo interpretação. Ela chora em filmes tristes, ele chora em filmes tristes, mas nunca assistiram um filme juntos. Ele vive cantarolando pagodes tão baixinho que ela não consegue ouvir. Ele gosta de ir a casa dela a tarde, ela preferia que ele viesse no fim de semana. Ele diz que a vida dele é mais complicada do que a dela. É verdade que ela tem muitas tarefas, todas claras e muito bem agendadas. É verdade também que até as pessoas mais simples tem medo de afeto, deste que ela aprendeu com os seus quatro gatos. Ele quer compromisso, mas não conta nada da vida dele. Ela é um livro aberto sem capa. A ex-punk dedicou uma música ao pagodeiro*. Ele vai acabar dançando.

*“querendo te encontrar”. João Bosco e Vinicius, do DVD pirata que ele esqueceu na casa dela.

janeiro 22, 2010

Volúvel e fácil


Franz Kafka tem um conto que foi traduzido em Portugal por "A Recusa", traduziria como "A Rejeição". é assim, um rapaz mexe com uma garota: “Ei quer vir dar uma volta comigo?” e ela responde algo como: vc está muito distante do meu sonho. O rapaz retruca: pensando bem vc também não é meu tipo de mulher. Chegam a conclusão:
" Sim, ambos temos razão, e para que de tal não nos apercebamos de modo irrevogável, será melhor, não achas, que cada um vá sozinho para sua casa. "
Quando se faz ao contrário e se aceita o convite de alguém que vc não tinha reparado a noite inteira, por pura distração, diga-se de passagem. Mas que é uma pessoa de outro mundo, que fala outra língua e nenhuma pesquisa no google encontra, enfim,um cara do tempo da manufatura. No fim das contas, teria sido melhor ter ido pra casa por caminhos diferentes. Pois não se passa por esse tipo de experiência incólume não?.


"antes mais uma cerveja do que matar sua fome ,,, como diria o cantor de bolero" Fagner & Zeca Baleiro

janeiro 07, 2010

do diário dos quarenta

Não posso ouvir música que danço, nem ouvir música triste ou ver filme triste que choro. Não posso ver beleza que me arrepio. Mas até agora não me ajustei aos quarenta.

dezembro 31, 2009

Seria uma sereia ou seria Só

Eu sou uma sereia fora de forma, pois desde de Ulisses na Odisseia estou por aí. Enquanto Penépole tecia eu nadava. Isso faz tempo. E desde então como as baleias não achei meu lugar no mundo. Lulu Santos fez uma música para mim: "clara como a luz do sol, estrela do oriente nesses mares do sul"; os caras do clube da esquina tbm: "clara estrela". Grãozinho de areia que olhou pro céu viu uma estrela e sonhou coisas de amor, será este meu destino?

dezembro 19, 2009

o carro velho, a motorista que não sabia dirigir e a passageira que não conseguia desembarcar

Estou numa fase em que pratico da idéia que minha opinião não é tão importante assim, mas não me calo o suficiente. Ainda verto palavras desnecessárias. Falo, falo, faço discurso, julgo, absolvo, reclamo, emito indulgências, auto-indulgências, e falo e digo, critico, avalio, condeno e assim por diante. Algumas vezes faz diferença, poucas vezes. Ah, quando é a hora do silêncio?
Recuperei o apreço por Charles Bukowski e isso vai me custar 200 reais. Quase tudo me custa muito. Será que sou eu que transformo tudo neste tipo de valor para que eu pague o preço? Sei lá
Mas já sei o que significa aquele sonho do carro meio quebrado descendo a ladeira com uma motorista velha que não sabe dirigir direito e que não para quando eu solicito. O carro continua, não está desembestado, apenas não pára. Até que num ponto adiante vejo algumas alunas e peço de novo que pare. Como não fui atendida eu desço do carro em movimento. A motorista reclama, ei não vai pagar não?!!! Embora tenha o dinheiro para pagar 7 reais, não pago. Hum?!
A vida não para e no momento eu não dirijo. Sigo, alguém sempre me leva, porém nem sempre quero ir. Na verdade as vezes quero apenas ficar um pouco mais, contudo sou obrigada a seguir pois minha vontade não conta. Sigo sem querer e alguém ainda me cobra o preço, deve ser isso não?? Só que daquela vez eu não paguei, era um sonho.

novembro 17, 2009

O que diria a menina que eu fui, se me visse hoje?

O que diria a menina que eu fui, se me visse hoje?
Contando segredos a motoristas de taxi... Psicólogos, eu pago regiamente. Tendo como deus mais gentil um blog, e felinos de verdade como companheiros. Despreparada para o amor.
Já não choro por amor, choro quando um homem desvanece, choro em enterros de homens sólidos, daqueles cuja fundação era de pedra. Nosso tempo é aquele que devemos edificar na areia, acreditando ser pedra como diz Borges.
Estou, sempre que posso, tentando despertar a deusa que mora em mim. Mas fica cada vez mais caro o projeto bonita.
Espero ainda o tempo de chegar até mim mesma, mas estou sempre adiando, adiando este momento. Chegar até mim, é o que eu chamo de me tornar sábia. Ando traindo a minha via por nada, nadinha mesmo. Há tempos isso acontece.
Nunca fiz muitos planos, sempre segui um dia de cada vez. As coisas mudam. Tem uma estranha que me olha no espelho agora. Ela é toda diferente, não é mais deslumbrada, quase não sorri, chega a ser monótona. Eu a tolero desde que volte a dançar.
Quem disse que a mudança dói na adolescência, a gente muda o tempo todo, Platão. O devir é inevitável, podemos fingir que não vem. A cada dia, amadurecemos, oxidamos, entortamos, talhamos, etc. e um dia tudo acaba.
O que eu menina pensava sobre uma mulher como sou eu hoje?
A petulância dela me fez ser assim, quase impossível, “ferrada” e um sucesso ao mesmo tempo. Triste e sonhadora, carente e auto-suficiente “afetiva” (quem me dera, mas é algo assim), memoriosa e indiferente, quente e fria. Doce até não poder mais. Eu sei, saiba também, este dia sempre chega, o dia de não poder ser mais doce.
A curiosidade dela nunca morre. O sorriso está mais difícil do que nunca. A curiosidade dela me faz ir ao horizonte. Não, não busco a verdade nem a beleza, sempre busquei foi o encanto. Não temo o canto das sereias... A paixão pelo encanto foi o que a menina que eu fui me deu de presente.

outubro 22, 2009

O inferno tem muitas portas

To escrevendo sobre visões do inferno, só frases de memória:
“É preciso ser homem de bem mesmo no inferno”, “mesmo no inferno há ar para respirar” de Adorno.
“O inferno tem muitas portas algumas são bem conhecidas outras são mais disfarçadas, entenda-se com suas pernas" de Akira S,,,
Mas o que eu enfrento mesmo é o inferno aqui dentro, o tédio. Eu me faço perguntas. Se aquilo era o inferno, por que a falta, não pode ser falta.
Benjamin diz que no tédio se choca o ovo da experiência, e eu que nunca chego lá...todo dia refazendo e fazendo as mesmas coisas que consomem, meninos que se desarrumam, logo depois de vestidos e penteados, pensamentos que se desfazem no diálogo seguinte.
Falo em considerar todos os fatores na análise, mas não dá tempo, a pressa do dia a dia, não consigo ter respostas para as falas agressivas e reativas. Eu nunca fico pronta...
Aquela frase de que as pessoas do inferno são mais divertidas e o céu tem melhor temperatura. Fico pensando que lá no inferno estão as pessoas desagradáveis, cruéis, rancorosas, golpistas, super-vaidosas, super-sinceras e que todos são churrasquinho também. Num filme de Wood Allen o Diabo tem sala com ar condicionado, claro!!! Prefiro distância das pessoas do inferno por serem insuportáveis e das do céu por serem chatas. Será que haverá outro lugar pra ir?
Prefiro aqui como está e como estou...

setembro 24, 2009

Infâmias da solidão

Dentre as possibilidades dos sites de relacionamento está acompanhar a vida do ex, que seja ex (ex-alguma coisa ele é), como se fosse uma novela. Só que uma novela ruim e com final previsível.
A bisbilhotice (mesmo virtual) é nefasta, inútil, um desperdício mesmo. Um tédio comparsa da solidão! Infame solidão! Não que eu não tenha o que fazer. Mas a falta que faz esse assunto, que coisa. Não sou mais uma piscopata que persegue o amado. Fico a uma distância regulamentar. Mas o amor diz Bukowski é mesmo um "cão do inferno", mesmo quando morre continua rosnando. Bukoswki, as vezes consegue não ser interessante, mas seu bom senso me apazigua.

"A escrita - Charles Bukowski (O amor é um cão do inferno)
algumas vezes é a única coisa entre ti e a impossibilidade. nem a bebida, nem o amor de uma mulher,nem a saúde se comparam a ela. nada te pode salvar excepto a escrita. impede as paredes de ruir. o canalha de se aproximar. expulsa a escuridão.
a escrita é o derradeiro psiquiatra, o mais gentil deus de todos os deuses.
a escrita afasta a morte. nunca te abandona. e a escrita ri-se dela própria, da dor. é a última esperança, e a última explicação.
é isso que é."

agosto 30, 2009

Gatos atropelados

De vez em quando, penso que eu venha agradecer aos homens que passaram por mim atropelando, "me deixando de lado". Os tais que me trataram como um vento que passou (da música mulher sem razão): o que não me mata me deixa mais forte dizem por ai. Sei reconhecer um gato atropelado a distância e logo penso em levar para casa. Inútil, ele fica bom e foge. São quase três anos de solidão nos entremeios.
Reconheço tortos e aleijados de alma por que eu mesma convalesço disso. Meu couro está curtido, vejo tudo claramente, muito embora, tenho que admitir que seja a solidão que traga esta clareza. Quando aparecer alguém, irei continuar assim?
Meu couro está curtido, mas minhas pernas dobram-se ao peso da dor. Sinto que vou quebrar ao meio, ainda a mesma dor. De que adianta ver mais do que outros se minhas pernas não alcançam o horizonte? Se quando faz muito frio, eu tenha que conversar com felinos que nunca tomam banho?
Esses gatos me aquecem. Aprendi com eles o melhor modo de ficar junto, só que os companheiros humanos não perceberam. Nem todos estão preparados para o afeto, nem eu.

agosto 28, 2009

"Cuide de Você"

Me apaixonei pelo trabalho “prenez soin de vous” ou "Cuide de Você" de Sophie Calle, tem a ver com este blog desde setembro de 2008. As rupturas nos tornam clarividentes, pois, os campos se tornam mais verdes como disse Fernando Pessoa. Tudo se esclarece, fica "mais de verdade", fica mais nítido, cada contorno, cada fato e seus desdobramentos entram em análise. E nos cremos sapientes das causas, mesmo que não importem mais. Do modo como Sophie Calle fez ela não engoliu seco e ainda partilhou, socializou. E "ele" simplesmente virou "picadinho" no esquadrinhamento epistêmico, sentimental, disciplinar feminino, se acabou nos despachos, nos descarregos e nas catarses: ele que se achava tanto vai pensar duas vezes antes de "se achar" ... talvez ela também tenha dificuldade de namorar um outro igual a este...



""Esse trabalho inicia-se quando Sophie teve um relacionamento amoroso rompido por email, que terminava com a frase “prenez soin de vous” (cuide-se). Sem saber como responder a essa mensagem e a essa situação, ela resolveu seguir o conselho de uma amiga de fazer um trabalho de arte e utilizou para isso a própria mensagem. Gravou em vídeo mais de cem pessoas lendo o email e fazendo comentários. Entre as “leitoras” estão a mãe da artista, as atrizes Jeanne Moreau e Vitoria Abril, a compositora Laurie Anderson, a DJ Miss Kittin, entre outros.

Ela enviou o texto do email para um advogado forense, uma lingüista, uma taróloga, uma juíza especialista nos direitos femininos, entre outros, e pediu a todos que o texto fosse analisado segundo o filtro de cada especialidade. E esse material compõe a instalação.

Para Sophie, “é mais fácil realizar um projeto quando sofremos do que quando estamos felizes. Não sei o que prefiro: se é estar feliz com um homem ou fazer uma boa exposição”. Seus trabalhos são acompanhados da escrita, seja no título, na legenda ou em narrativas, e são parte integrante da obra. Como disse a crítica francesa Cécile Camart, “a dimensão narrativa de suas instalações, misturando fotografia, textos e objetos, encontra sua filiação histórica na primeira metade da década de 70, em que jovens artistas como Christian Boltanski (”Récit-Souvenir”, 1971), Didier Bay (”Mon Quartier Vu de Ma Fenêtre”, 1969-1973) e Jean Le Gac (”Anecdotes”, 1974) propuseram uma ‘arte narrativa’, uma arte das pessoas, das coisas e das situações, que abrange um vasto leque da vida cotidiana real ou imaginária”."
ver em um artigo publicado em Publicado em 13 de março de 2009:
http://anodafrancanobrasil.cultura.gov.br/br/2009/03/13/exposicao-prenez-soin-de-vous-de-sophie-calle/

julho 23, 2009

A dieta do pensamento

N a leitura do livro “A cozinha do pensamento” de Josep Munoz Redón encontrei algo de estou necessitando muito, tanto no que diz respeito ao corpo quanto à mente. Um conselho de Soren Kierkegaard sobre uma dieta de baixas calorias.
“Quando um homem tem a boca cheia de comida, impedindo-lhe comer (...) como se conseguirá fazê-lo comer: enchendo-lhe a boca ou tirando um pouco de comida? Do mesmo modo, quando um homem sabe muito, quando sua sabedoria tem nenhuma importância para ele ou age como se não se importasse nem um pouco, o que é razoável: levar-lhe mais conhecimento ainda, (...), ou tirar-lhe um pouco?”
Redón diz que a dieta do pensamento recomenda assim, que não comer é a única maneira de continuar comendo. Com a boca cheia não se pode comer, assim como com o cérebro embutido de idéias não se pode pensar.
Kant diz algo semelhante, sobre a necessidade da pausa: “A mente se nega, de certo modo, a continuar trabalhando, mas permite ocupar-se de outras coisas. Perceber isso é parte da dieta do pensamento”.
A cozinha do pensamento: um convite para compartilhar uma boa mesa com filosofos. Josep Munoz Redon. Ed. SENAC

julho 14, 2009

Avulsa(s)

Avulsa social, prisioneira institucional, perdida profissional, escrava do tempo real, caótica organizacional, carente afetiva, mãe que deve tempo, atenção. Culpada. Devo muito mais a mim mesma do que ao cartão de crédito e ao banco (certamente esta conta não vou acertar)... Trabalhadora procrastinante, adiando a tarefa mais importante em função das rotinas emergentes, adiando o amor, adiando a viagem dos sonhos, adiando a leitura programada, a pesquisa necessária, adiando recomeçar, adiando as entregas...

Nas missões jesuíticas (séc. XVI-XVII) as mulheres não podiam ficar avulsas, foi concebido um edificio especialmente para elas. Uma das aplicações do panóptico de Benthan era "abrigar" mães solteiras, tal como prisioneiros(as)...

julho 10, 2009

Todo anjo é terrível


"Todo anjo é terrível. Mesmo assim - ai de mim - vos invoco, pássaros quase fatais da alma sabendo quem sois."(...) Rilke
“É preciso conceber ou imaginar como voa e se desloca Hermes, quando ele transporta as mensagens que lhe confiam os deuses – ou como viajam os anjos. E, para tanto, escrever os objetos que se situam entre as coisas já observadas, espaços de interferência (...).
Esse deus ou esses anjos passam no tempo dobrado, daí surgindo milhões de conexões. A preposição ‘entre’ sempre me pareceu e continua parecendo para mim uma preposição de importância capital” Michel Serres

junho 28, 2009

Michael Jackson: estranhamente familiar


Esquisito de se ver, um efeminado esbranquiçado. Dizem que era frágil, frágil, vozinha fraca quando falava e que crescia no palco. Grande criador de gestos, passos de dança, letras e músicas. Outro monstro bizarro que não cabia no mundo dos normais demais. Eu compreendi isso, porque também sou monstra. Não gostava da maioria de suas músicas (demasiado pop? sei lá porque), mas admirava sua dança. Ele tinha o direito a ser da cor e do gênero que bem entendesse, desde que não invadisse sonhos alheios ou os limites alheios. Aos meus 10 anos ouvia Ben, e entronizou em mim, Ben...

"(...)
Ben, most people would turn you away
(Turn you away)
I don't listen to a word they say
(A word the say)
They don't see you as I do
I wish they would try to
I'm sure they'd think again
If they had a friend like Ben
(A friend)
Like Ben
(...)".

junho 04, 2009

eu gosto de ...

Eu gosto de rir com vontade de rir. Gosto de ter esperanças, gosto de crianças, de bichos, de nadar, de areia da praia, de vento e maresia, de florestas, de espaço, de coisas muito usadas, das marcas do tempo nas coisas, das marcas do tempo no rosto das pessoas, de salada, de sopa, enfim, de comida quente e de cerveja gelada. Pois, vinho eu amo. Adoro praças cheias de gente, gosto de falar, interrompo, mas sinceramente não gosto quando faço isso.

Gosto do outono, do inverno e da primavera, só gosto do verão em dias de chuva rala e dos seus fins de tarde depois das 18 horas à beira mar. Gosto de Itaúnas, do centro de Vitória, de São Paulo, do centro do Rio de Janeiro, de Barcelona, de Nova Iorque (nem conheço), gosto de muitos pensadores, gosto de muita gente que já morreu. Gosto de abraço, de carinho de quem eu amo, que me passem a mão nos cabelos, de massagem. Gosto de montanhas e de pedras. Gosto de perfumes e de batons de várias cores, de roupas que se ajustem discretamente ao corpo. Sou fissurada em sapatos e bolsas, confesso que leio Vogue decoração (sou uma perua incubada com certeza)

Amo pessoas que gostam e se dedicam ao seu trabalho, detesto exploração de todo tipo e “puxada” de tapetes. Não gosto de quem conte vantagens ou humilhe os outros o tempo todo nem de quem fala muito alto. Para petulantes gostaria de não ter tempo. Não sei se amo a vida o tanto que deveria (para ter gratidão por esta jornada), mas não quero perder esta oportunidade de jeito nenhum...

maio 26, 2009

prato que se come frio é insosso

Aprendi que não se muda pela simples intenção de mudar, é preciso mais que força de vontade, é preciso muita pertinácia;
Não se esquece alguém porque se quer esquecê-lo, o sentimento, seja o nome que se dê quando se está quase vazio, só vai embora quando finalmente chegou ao fim. O esquecimento ainda não é o fim, esquecer é apenas deixar cair... e demora... é como se fosse na gravidade da lua...
É o tempo sobre o tempo, a vida que segue que permitirá enfim transformá-lo num vácuo; não ter nada a ver. Ao estranhá-lo verdadeiramente eu poderia me sentir livre.
E enfim a vingança, eu sei por que já vivi, como prato que se come frio, completamente insosso, não tem nenhuma graça... é apenas lembrança de um tempo desperdiçado.
Eu preciso apagá-lo de mim, que seja névoa-nada... preciso que não haja mais nenhum sinal do vapor barato que não sabe ser amado.

maio 05, 2009

Uma história romântica

Eu sei uma história de amor, uma história romântica. Sobre um morador de rua que lavava carros na Enseado do Suá. Ele se apaixonou por uma bancária. Ela passava e ele se declarava, sobre como ela era linda e mexia com o coraçãozinho dele.... Isso todo dia, ela paciente, condescendente as vezes sorria, sempre conversava com ele. Todo dia ele esperava ela entrar e sair do trabalho e se declarava...
Então ele sumiu, nos primeiros dias ela se deu conta e ficou na dela. Uma semana foi demais, ela saiu perguntando por ele e ninguém sabia dele nas imediações nem em outras paragens aonde ele poderia estar. Ela mesma saiu procurando pelos terrenos da Enseada do Suá (Vitória, ES) e achou ele morto de frio há quase uma semana num terreno baldio. Ela fez o enterro dele.
Ele não teve uma vida nada digna mas um enterro de um homem que foi amado.

abril 22, 2009

Envelheço na cidade

Quando Deus me fez não nasci de uma costela de macho, nem nasci dos órgãos de meu pai jogados ao mar, provavelmente nasci de sua dor de cabeça que foi obra da minha mãe.
Assim não nasci predestinada a ser par de homem nenhum, sabendo que não seria nem escolhida nem bela, fui à minha a guerra particular, fui a universidade e nunca sai de lá: “eu sempre fui jovem”.
É uma espécie de clausura essa, aonde está o lado de fora? a porta aonde está? que não acho ...
“Envelhecer na cidade” é uma tarefa penosa, mas não vou ser jovem para sempre, este é um bom momento para encarar a vida...

abril 18, 2009

meu caderninho de vergonhas


É uma música do Duo Moviola... não tenho coragem de expor publicamente,,, Mas confesso, como se já não soubessem tudinho por ai...

Meu caderninho de vergonhas tem uma lista interminável de porres e ressacas (...). Tem um monte homens mal beijados (a cada 3 anos), desempenhos sexuais vexaminosos, vergonha, ilusões amorosas, reclamações chorosas, eu no papel de vítima, mal-entendidos, auto-piedade, dinheiro jogado fora, comida desperdiçada, energia desperdiçada, desorganização, enganos, negócios mal feitos, interpretações equivocadas, ações atabalhoadas, camas alheias que nunca devia ter deitado, convites que eu devia ter recusado, convites que eu devia ter aceitado, homens errados, amigos jogados fora, palavras que devia ter dito e não disse, palavras desnecessárias, projetos falhos, crenças ideológicas, manipulações, armadilhas em que cai sabendo, histerias, tergiversações, digressões em excesso, esperanças vãs ...

abril 04, 2009

carta a um ex amor

Esscrita em 22 de fevereiro de 2008

O que pode gerar uma carta a um ex amor, a quem recorda as suas delícias inesquecíveis? Era uma carta meiga sim, sem intenções explicitas inicialmente, apenas se comunicar. Mas em desespero contido, sim aspirando uma definitiva ruptura, secretamente rogando indiretamente ao deus destino que alijasse daquele sentimento cada vez mais inominável e fugaz.
É plausível se dialogar sobre o fim? se reflete sobre o fim? que finalidade? Não seria melhor simplesmente seguir em frente sem mergulhar a calda do rio quase no fim da travessia? Infortúnio? Olhar pra trás e virar estátua de sal. Para que prorrogar um mal estar? Há males que vem para o bem.

O pior é ter as palavras distorcidas. Ou eu não sei mais escrever ou ele não sabe ler, das duas uma, apenas uma. "Não coloque palavras na minha boca, nem mulheres na minha vida nem maridos e esposas" uma letra que faz sentido para mim.

No fim depois do diálogo inteiro tenho agradecimentos a fazer: a bruxa Ana pelos florais que deram eixo e visão extra (seja lá o que eu vi); a minha mãe pelas orações e pragas; ao I ching pelo conselho-aviso sobre eu estar caçando no campo errado; e principalmente estou grata à ilusão de ter visto a pomba gira rondando o cara e ter fugido covardemente.

Agradeço também ao destino por não ter ido a uma certa festa em dezembro, preferiria entrar no ninho de najas. Agradeço ter tido juízo e ter saído sempre na hora certa da sua companhia; a solidão me cai bem. Agradeço também as mulheres que por último se tornaram suas companheiras que me livraram do seu ego vaidoso e presunçoso, dos seus equívocos reincidentes. Elas me livraram, especialmente, de te achar engraçadinho que cansaaaa demais.

As vezes suas saídas eram geniais, mas eram muito raras, raras demais para apostar em segurar vela, que idéia descabida!!! Prefiro segurar um fio desencapado,,, Pare de se achar, rapaz.

Respiro agora livremente, em meu sorriso não pesa a saudade e nem a inveja. A solidão me cai bem... Doravante não vou perder mais meu tempo nem tomar ou desperdiçar o dele também, pois ninguém merece.

Me torno doravante uma máquina celibatária involuntária até que outro engraçadinho apareça...

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abril 01, 2009

Aqueles belos olhos se tornariam braços?

Foi então que eu esqueci esta história de matar (e esqueci). Decidi fugir... No caminho, encontrei um homem muito moreno de olhos claros, bonito ele era. Meus olhos reconheceram reciprocidade, assim como meu corpo. Mas algo aconteceu e a gente se perdeu.
Aqueles belos olhos se tornariam braços? Lábios? Fluidos? e pernas?
Mãos de outros, muitas mãos tentaram me prender, mil mãos e braços me abafando. Sou descrente de quem me prende quando estou de passagem ou quando quero pensar. No meio disso, não estou realmente livre ...no entanto não tenho aonde me sinta acolhida, não tenho lugar. Durmo toda noite no sofá, acordo de madrugada. Perdi o sorriso que eu tinha readquirido, perdi um pouco o rumo, mas eu sei...


Disse Baudelaire a sua passante;

"(...) olhar me fez renascer de repente, Só te verei um dia e já na eternidade?
Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente! Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais, Tu que eu teria amado - e o sabias demais!

fevereiro 28, 2009

Sobre o perdão ou não, melhor o esquecimento

O cara mau topa com o cara pior ainda. Depois do susto perante o inesperado, ele diz para si mesmo: Por que eu não estou surpreso? Então, dirige-se ao outro:
‑ Você está morto. Eu te matei.
O cara pior ainda retruca:
‑ Hum, hum (balançando a cabeça negativamente). Estou vivinho no teu desejo de me matar novamente,,,
Seria um momento oportuno para Nancy Sinatra cantar: “My baby shot me down, bang bang...”. Mas o cara pior ainda, mais do que entediado pergunta:
- Quantas vezes terei de morrer para me livrar de você, você me cansa?
A trilha sonora transtorna-se de repente " China canta:
"A partir de agora tudo é mais claro pra mim. Agora percebi que vc não passa de um espaço aberto na multidão. Eu não vou mais te procurar... [mas] eu vou seguindo, colocando sal nas feridas,,, vc vai sumindo, desaparecendo feito foto velha".
Antes que amúsica termine, o cara mau se torna pior ainda, acende um cigarro e diz cantando outra música do China:
_ Por hj vc não morre mas amanhã quem sabe...

Eu escrevi o diálogo acima inspirada em dois contos, o primeiro de Wilson Bueno sobre duas cobras autênticas que se encontram uma simpática perguntadeira e uma meio blasé, resignada na sua condição de cobra venenosa. Sem demonstrar simpatia esta se mantinha cobra, em plena pose a cobra fingida nhacc nela. Ela só queria muito mostrar de antemão quão cobra ela era,,,, e depois vi que por inversão meu textinho relaciona-se ao conto de Caim e Abel de Jorge Luis Borges, neste os dois irmãos se perdoam, como deveria ser, afinal.

“Caim e Abel encontraram-se depois da morte de Abel. Caminham pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, acenderam um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu assomava uma estrela que ainda não tinha recebido seu nome.

À luz das chamas, Caim percebeu na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava prestes a levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado seu crime.

- Tu me mataste ou eu te matei? – Abel respondeu.

– Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

- Agora sei que me perdoaste de verdade – disse Caim – porque esquecer é perdoar. Procurarei também esquecer.

- É assim mesmo – Abel falou devagar. - Enquanto dura o remorso, dura a culpa”.

fevereiro 24, 2009

só não quero deixar nada pra depois

"Quero esquecer da vida pra viver o amor, ..., não precisa dizer nada pra não se arrepender, tem certos momentos na vida que o silêncio é melhor,..., peça pra que o dia não chegue pois vc me encontrou, esta noite vc vai ter que ser minha... nem que seja desta vez e nunca mais... só não quero deixar nada pra depois ..."
Não sinto tédio, lembro dos rádios tocando nas cozinhas, das fotonovelas com galãs italianos, dos parques de diversão na periferia, seus carrocéis e rodas gigantes, das músicas dedicadas pelo alto-falante,,, as músicas provocam meu riso solitário, meu canto divertido, me recordam minha origem (deslocada). Provocam o esquecimento do que preciso esquecer urgente...
Hoje é terça de carnaval, tenho que trabalhar e fico ouvindo Diana e Odair José...

fevereiro 01, 2009

Parábola dificil de escrever ...

Não é fácil escrever uma parábola. Há volta do filho pródigo, mas não há volta dos que não foram nem volta dos que nunca estiveram por lá...
Perguntei ao oráculo se devo prosseguir com o retorno ensaiado, ele disse primeiro que devo me desarmar, descer da montanha, contudo o movimento em direção a união deve ter as regras claras. As coisas em seu lugar, os nomes próprios das pessoas e cada qual no seu lugar próprio. Pois sem retidão no final pode ocorrer um desastre. ...
Meu coração diz que não, não, não, não há clareza suficiente; não é hora, e pode ser que o momento tenha sido perdido para sempre...

Nas relações humanas as categorias (algo como marcar lugar, posição) evitam sofrimento, confusão e desentendimento. Mas lugar e posição não são "algo" fixo, estabelecido, que não se possa mudar, conquistar, perder, abrir mão. Não é algo que se dê de mão beijada sei. Porém, se desde o ponto de partida as coisas estão confusas, no meio é que não vão se esclarecer...

Hexagrama 13 T'UNG JENA UNIÃO ENTRE OS HOMENS
Sentença: "A União entre os Homens, às claras, traz sucesso. É propício atravessar a grande água. O homem superior sabe que não pode relaxar sua retidão."
Comentário: "Alguma coisa suave tem poder de influência (linha fraca no lugar central) e responde à força criadora (linha forte e central do Criador). Isto quer dizer: 'A União entre os Homens, às claras, traz sucesso'. O trigrama indicando beleza e claridade é apoiado por aquele que representa a força: este é o trabalho do princípio criativo. A linha central do Criador simboliza o sábio. Só ele pode compreender e influenciar a vontade de todos os povos da Terra."
Imagem: "O Céu e o fogo juntos formam a União entre os Homens. De acordo com isso, o homem superior estrutura a sociedade e distingue as coisas conforme suas espécies e classes."

janeiro 08, 2009

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos ...

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo...
isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos... isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida... isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância.

Solidão é muito mais do que isto.

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.

Francisco Buarque de Holanda

dezembro 17, 2008

"I share an empty balloon with the shadows..."

"I share an empty balloon with the shadowsget nastier by the picture-frame" do poema verses from an empty nest de Nick J. Swarth in Naked city poems


dezembro 03, 2008

Amor "eu não te conheço"

2 days in Paris, filme de Julie Delpy, cena final
Jack diz a Marion “Eu não te conheço”. Antes disso Marion entra em sua casa em Paris com seu gato no colo. Eles ficaram distantes todo o dia por causa de uma briga (ela faz uma cena histérica num bar com um ex-namorado, ele tem ciúmes e está deslocado - Jack fica meio a parte da língua francesa, dos ex-namorados dela, etc).
Marion narra:
“Para resumir a história. Não é fácil estar num relacionamento. Especialmente conhecer verdadeiramente a outra pessoa. Jack percebeu que depois de 2 anos de relacionamento não me conhecia, nem eu o conhecia”.
Jack e Marion por minutos confessam seus temores e dificuldades na relação e Marion continua narrando:
“Então ele disse algo que me magoou. Seu tom mudou drasticamente. Eu não entendi muito bem o que ele quis dizer, mas supus que ele quis dizer que não me amava mais e que queria terminar tudo.”
“Sempre me fascinou como as pessoas passam do amor incondicional a nada, nada... doeu muito. Sempre que percebo que alguém vai me deixar, tenho o impulso de terminar primeiro só para não ouvir tudo que vai ser dito.”
“Aí está ele um a mais, um a menos, outra história de amor desperdiçada. Eu realmente gostei desta história.” Marion continua relatando: quando tudo termina, nunca mais vemos a pessoa deste jeito (próximo, íntimo). Mais cedo ou mais tarde, o casal vai se esbarrar e se comportar como se nunca estivesse ficado juntos, talvez cada qual em um novo relacionamento, pensando um no outro cada vez menos e menos, até esquecer completamente.
“Para mim é sempre a mesma coisa, terminar, acabar, beber, sair por aí, conhecer um cara aqui outro ali, transar para esquecer o amor. Alguns meses de vazio completo. Procurar desesperadamente um amor verdadeiro, pensar que encontrou até que este acabe também”.
Mas, não pense que este relacionamento acabou, ela diz que há um momento em que não se dá conta mais de separações, e mesmo que esta pessoa acorde todo dia espirrando em seu rosto é com quem você pretende seguir a jornada...

novembro 28, 2008

Amor ,"a vingança nunca é plena"

A maior covardia de um homem é despertar o amor de uma mulher sem ter a intenção de amá-la. Bob Marley
A atração ou a repulsão são na verdade de ordem sexual. Julia Kristeva

Fui diagnosticada como compulsiva incurável. Minha compulsão se manifesta pelo excesso de trabalho (que desenfreado é maldição e desejo de esquecer quem somos), de paixão e de sexo (quase perdendo a cabeça), ainda de ingestão de bebida e de comida, com tempo, energia e eventualmente dinheiro desperdiçados em cada uma dessas funções. Ah! para meu bem estas coisas não acontecem ao mesmo tempo.
A maioria das compulsões envolvem morbidez e sacrifício (este não é o caso do sexo ou da comilança) entretanto todas levam a ansiedade, a culpa e a baixa estima, algumas vezes a fobias e ao delírio. Os comportamentos compulsivos evidentes ganham termos pejorativos, uma semântica de desprezo e hojeriza social.
Em rupturas afetivas reicindem os passos, tais como foram designados nesta fórmula de José Gil: AMOR → dor da não reciprocidade afetiva → sofrimento-ressentimento → inveja → vingança (mau-olhado, vendeta). Na raiz da palavra inveja já contém o olho ruim. Isso não se pode evitar.
Atroz contradição a da inveja, assim como a do ciúme, nascem do amor e matam o amor, digo recorrendo a uma frase de Simone de Beauvoir. O ciúme e a inveja interrompem o fluxo de afeto. Pois é, não é demais repetir:
“Ciúme é o acúmulo de dúvida, incerteza de si mesmo, projetado. Assim jogado como lama anti-erótica na cara do desejo mais intenso de ficar com a pessoa” (Katia B).
A minha experiência não ocorre exatamente na ordem da fórmula de José Gil e, quase sempre é interrompida antes de chegar ao ponto da vingança. Se por acaso, o quebranto se realiza vem muito tarde, vem depois do esquecimento. Mas não antes de ter me envenenado a alma. Seu Madruga está certo: "A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena".
Antes de chegar ao ponto da vendeta, desencadeio um processo autodestrutivo novamente compulsivo. Na penúltima ruptura "amorosa (?)", preenchi o vazio do amor que antes se disseminava em meu corpo, ocupando mais espaço no mundo (sem ter o direito) com obesidade. Anestesiava o corpo e recusava a encarar a dor. Antes disso, experimentei uma espécie de síndrome de pânico. Neste o amor foi substituído pelo terror. Fiquei possuída pelo sentimento ruim que poderia enviar ao outro. Imediatamente após a aparente cura dessa possessão, procurei consolo em outros corpos, foi então descobri que é bobagem transar ou “beijar uma pessoa para esquecer outra” (Mário Quintana). Mas vamos combinar: o tempo que cura tudo, é melhor usufruído do lado de um corpo quentinho que te deseja (quando te deseja). Em todo caso, é melhor do que o mau-olhado introvertido.
No entanto o mundo continua esvaziado, nem o sexo nem a bebida substituem o tédio e sua insipidez; amenizam a cólera (ímpeto violento), o ódio (paixão que impele desejar mal a alguém), a raiva (aversão) e o ressentimento (mágoa).
A cólera em mim é passageira e sempre deixa estragos; o ódio vem lento, porém não fica muito tempo. A raiva dura mais ora transmuta em mágoa ora em pasmo. Pasmar tem a ver com admirar (olho bom), mas também com inércia e assombro. Ocorre-me nesta fase mais nos aspectos negativos. Com o tempo a raiva também se dissipa não em esquecimento. Não tenho a qualidade de não ser ressentida, não sou um ser nietzscheano e sou mulher. “A mulher aprende a odiar na medida em que desaprende encantar.” Estou me aproximando da fase em que se perde o encanto. Conheço mesmo um homem que diria que este tempo já chegou. É o objeto do meu atual mal estar.
Talvez seja a culpa que me faz evitar chegar a vendeta. Não somente a culpa, mas também a incompetência para a maldade. Não é que não saiba ser maldosa, o que eu não sei é fazer maldade. Não tenho a disciplina, a paciência e a mente estratégica necessária. Por outro lado prezo muito meu tempo para desperdiçá-lo mais ainda.
Sou ressentida sim, contudo, não em tempo integral. Me divirto nos dias de festa, no meio da multidão esqueço. Em todo caso, não esquecer por completo é precaução para não cair nas mesmas ciladas de sempre. Ai quem me dera, não reincidisse. Estaria agora fazendo um hino a Dionísio ou a Bob Dylan oua Benicio Del Toro em vez de cismar (obsessivamente) porque me meto nestas situações.
Um cara nada ressentido como Bob Marley fala da crueldade de um homem despertar o amor de uma mulher sem a intenção de corresponder-lhe. Mário Quintana por outro lado diz o oposto: A coisa mais cruel que se pode fazer é se permitir apaixonar por alguém quando este alguém não pretende fazer o mesmo. Não foi por falta de aviso, é certo. Contudo, eu também avisei que não tinha nada menos do que todo meu amor para dar. A mágoa maior nem é perder o amor é não poder mais nunca mais confiar na pessoa.
O amor-aversão, desejo-rejeição são da ordem do jogo complementar de forças. Eu não sou inocente nem vítima nem algoz. E eu tenho aquela habilidade das mulheres, da qual Nietzsche nos acusa, de “levar insidiosamente o próximo a uma boa opinião de si e, depois, acreditar piamente nessa boa opinião”. Cai na minha própria armadilha, me apaixonei de novo por um personagem?
Devia me perguntar todo dia “o que eu estou ajudando a fazer de mim mesma?”. Porque deixei esta lama anti-erótica me cobrir novamente (leva anos para sair), quando foi que esqueci o desejo por causa do apego, porque razão eu abri mão do prazer e do gozo para ficar batendo a cabeça na parede. Porque cheguei até aqui tão íntima do rancor, da mágoa e do ressentimento e tão longe do amor.

Vendeta: é uma sequência de ações e contra-ações motivadas por vingança que duram anos, foi habitual em grupos do mediterrâneo.

Referências:
Metafenomenologia da inveja: magia e política de José Gil. In. Nietzsche e Deleuze, Bábaros e Civilizados. Organizado por Daniel Lins e Peter Pal Pelbart. Ed. AnnaBlume.
Imagens de Foucault e Deleuze. Rago, Margareth et al (org)

novembro 26, 2008

...

Bloco de notas, acessórios, contas erradas, ato falho, calculadora, visita a arquivos, compras compulsivas de livros, tonteiras devido anuladores, roupas largas, sensação de tédio, perspectivas, horizontes, mudança de shampoo, cremes, pele macia, chuva, goteiras no teto da cobertura, gatos fugindo para baixo da escada, filha morando longe, um vácuo no coração, sensação que tudo o tempo cura, me sentindo sem ter com quem falar, mas sem ter o que falar além dos fatos cotidianos, excepcional foi conhecer as amigas que moram com minha filha...
faltando a compromissos não muito importantes e por ai vai. A vida é chata mas é vida...

novembro 08, 2008

Espelho na desordem do mundo

A peça "A ordem do mundo" foi um espelho. Eu não teria tanto equilíbrio nem tanto orgulho de sapatos vermelhos com salto de 20 cm, não poderia me chamar de loura radiante, não estou tão em forma como Helena a única personagem da peça. Não tenho mais ilusões com o "poder", mas não abro mão do meu lugar. Ainda não tomo anuladores ou tomo? Fico tão deseperada por causa da minha filha e por amores fracassados quanto Helena. E inclusive, como ela, tenho a capacidade de esperar um telefonema de Pedro, que tem a capacidade de não me ligar. Também sou uma chata a citar filósofos, cientistas sociais, discutir Kant e suas três questões: o que posso pensar, o que posso fazer e o que posso esperar. Não obstante a encenação parecer uma conferência, há pessoas assim, eu sou meio assim. E também falo sozinha.
Helena procura em vão a ordem do mundo em jornais (é o seu trabalho), faz fórmulas, elabora categorias. Mas não há categorias disponíveis. As designadas se embaralham a todo momento. Em conclusão tal como o monge budista, constata-se que não há ordem no mundo, pois se não conseguimos enxergá-la é o mesmo que não haver.

Texto da peça : Patrícia Melo Direção: Aderbal Freire Filho Elenco: Drica Moraes


novembro 02, 2008

Estados de ânimo 2


O corpo fala por meio dos sintomas. A obesidade é uma forma de resolver o vazio da existência ocupando espaço, anorexia é uma forma de reação ao mesmo vazio auto-devorando-se. O medo do contato é medo do contágio, a inércia é medo do movimento da vida, a imobilidade é o temor de perder os devires (nada mal). E há as cascas daqueles que temem separações ou sofrimentos e não deixam que se aproximem deles ou daqueles arrogantes que vivem para si mesmos.
O modo como aparecem na face as marcas é um lento congelamento das emoções ou expressões recorrentes. Quando era pequena Mariana me desenhava sempre com um sorriso largo e cheia de buracos, na época minha analista (lacaniana) me disse que ela via minhas feridas (emocionais). O corpo não mente, ainda bem que nem todo mundo consegue ler estas marcas do corpo. Senão a vida social ficaria impossível. Por outro lado, há alguns que sacam tudo, e quando eles colocam o espelho na nossa cara, nossa auto-imagem desmonta. Eu sou esta? Não era bem assim que eu me via.

outubro 29, 2008

Duas ou três coisas que eu sei sobre mim

Inspirada no cineasta iraniano Abbas Kiarostami (finalmente me afasto da linha do diário de Bridget Jones 1). E também pensando na frase de Gadamer que “não conhecemos a nós mesmos”, minhas últimas experiências me comprovam isso relativamente a mim, evidentemente. Fiz uma listinha provisória (claro) de duas ou três coisas mais ou menos, que eu sei sobre mim:
Eu sou mesmo desmedida, devo adquirir um indicador de limites urgente;

Sou muito teimosa, já me dei mal por isso, e não aprendo;

Tenho dificuldades de aceitar o movimento próprio da vida, mas não de mudar;

E tem outra coisa, quando amo, dou minha alma toda, e no fim, preciso de alguns anos pra me recuperar e para deixar sair (apego?). Tudo é muito lento.
"ando com balde de água embaixo de cada olho, preciso ir bem devagar, senão derrama" Viviane Mosé

outubro 25, 2008

Oração


Meu Deus me dê vergonha na cara. Não por orgulho que é oco. Não pela vaidade que é inútil. Nem pelo medo do vexame, pois este foi inevitável.
Eu já levei todos os foras, já tomei todos os gelos, que sou capaz de assimilar. Mandaram-me ser feliz bem longe, cá onde estou. A recorrente mão estendida no ar , eu sei que é um sintoma que se compraz na rejeição. Isso me obscurece a vista e enfeia o mundo, me mata o desejo, aniquila minhas ilusões, que para mim equivalem à fé. Cada sensação desta condição deve ser mais um pecado computado à minha conta (bem alta por sinal).
Pois se sou eu o erro e a errada, Deus, eu não te peço muito, devolva-me a lucidez ou me premie com o esquecimento. Quero fazer jus a ser sua criatura, Quero de novo a volúpia dos dias de sol.

Se se pode reconhecer a essência de todos os seres no céu e na terra pelas atrações que exercem, o que dão a saber as rejeições ?

outubro 17, 2008

Historinha infantil

Á Socrates, velho esperto, pois nunca lhe faltaram amigos e amantes

Era uma menina de cinco ou seis anos, na época mais Electra de sua vida, sentia saudades do pai o dia inteiro enquanto ele trabalhava. Num desses dias quando o pai chegou tarde da noite, com seu coraçãozinho batendo de alegria, ela correu e abraçou-lhe as pernas, altura ao seu alcance. Talvez o pai tenha tido um dia difícil no trabalho, se aborrecido ou apenas estivesse com dor no fígado, o fato é que ele a empurrou com força como quem dissesse: “sai menina enjoada”. Isso marca como um amor não correspondido.
Um dos seus amores era vazio como um ator de fotonovela “Sétimo Céu”, mas tinha os olhos azuis, mais tarde, ela chegou a conclusão de que tinha amado um personagem, quem não fez isso? Talvez seja sempre isso mesmo que acontece quando se ama, dada a incomunicabilidade e a intradutibilidade entre gestos, palavras, atos e coisas dos humanos.
Um dos seus amores era um cara que dizia amar a verdade. É certo que ele sempre foi extremamente sincero. Mas ele colocava um espelho na frente das palavras que ela dizia, e as palavras, ou mais precisamente, seus sentidos, retornavam vazios, inúteis e invertidos muitas vezes retorcidos ... Tal como Sócrates que condenava a tragédia e defendia a verdade, que condenava os sofistas e fazia a mesma operação, esvaziando o mito, usando-o para seu benefício próprio, identificando o desejo como a falta, fazendo de Eros um simples amigo e da beleza numa idéia... Contudo isso, ela amou este homem, não um personagem. Enfim, esta história mais pareceu a história de dois cometas desgovernados que se trombaram por acaso no universo e por um tempo percorreram perfilados no espaço. Então cada qual seguiu seguiu seu caminho na imensidão, como era de se esperar.

Cada um desses encontros ou desencontros é uma estória da vida, as quais damos os "nomes que quisermos", mas não é uma choradeira sobre ser infeliz, sobre não ser amado. Afinal, tem-se caber no sonho de alguém. Isso não é fácil, mesmo porque requer competência e habilidade especiais ...

A historinha é uma resposta aos encadeamentos, às repetições que não se entende muito bem ou nadinha mesmo por que acontecem.

outubro 16, 2008

Só Deixo Meu Coração Na Mão de Quem Pode

Só Deixo Meu Coração Na Mão de Quem Pode
Katia B
Trilha sonora do filme “Não por acaso”
Vi este filme. A trilha sonora é muito legal, tem Nazi e Fausto Fawcett, esta letra expressa um desejo de ser tão boa quanto...

Só deixo meu coração na mão de quem pode
Fazer da minha alma suporte para uma vida insinuante
Insinuante anti tudo que não possa ser
Bossa Nova Hard Core
Bossa Nova Nota Dez
Quero dizer, eu to pra tudo nesse mundo
Então, só vou deixar meu coração, a alma do meu corpo, na mão de quem pode
Na mão de quem pode e absorve
Tanto no céu que no inferno
Inspiração de Mutação
Da vagabunda intenção
De se jogar na dança absoluta da matança do que é tédio, conformismo, aceitação
E eu fico aqui vou te levando nessa dança
Sobre o mundo Pode tudo do amor Pode tudo do amor
Porque eu não quero teu ciúme que é o cúmulo
Ciúme é o acúmulo de dúvida, incerteza de si mesmo, projetado
Assim jogado como lama anti-erótica na cara do desejo mais intenso de ficar com a pessoa

Eu não to a toa
Eu sou muito boa
Eu sou muito boa pra vida

Eu sou a vida oferecida como dança
E eu não quero “te dar gelo”
Diabos que o carregue
Vê se aprende, se desprende
Vem pra mim que sou a esfinge do amor
Te sussurrando Decifra-me, decifra-me
Refrão
Só deixo minha alma, só deixo o coração
Só deixo minha alma na mão de quem pode
– voz masculina –vê se aprende, se desprende——————-
Só deixo minha alma, só deixo meu coração
Na mão de quem ama solto!

outubro 10, 2008

“My Blueberry Nights”

Assisti ao filme “My Blueberry Nights” , do diretor chinês Wong Kar-wai. O filme não apenas é um dengo, é delicado, com passagens dramáticas, claro. Assiti muitas, muitas vezes. Norah Jones e Jude Law, interpretam Elizabeth e Jeremy, se conhecem no café dele quando ela rompe com o namorado que arrumou outra. No seu primeiro diálogo Jeremy diz:

"Em minhas observações, as vezes não há explicação e em outras é melhor não saber".

Ele continua: "Veja o caso da torta de Blueberry; as tortas de cheessecake e a de chocolate toda noite acabam enquanto a de blueberry fica intocada, não há problema com ela, só que ninguém a escolheu".

“My Blueberry Nights” poderia ser chamado de “Choose Me” diz uma crítica que eu li, que ainda comenta uma certa relação visual com o pintor Edward Hooper, no Brasil, o filme foi nomeado de "O beijo roubado" este aí de baixo.
Ela decide tomar o caminho mais longo antes de recomeçar. Passa um tempo sendo garçonete naqueles bares típicos americanos. Contudo, há um recomeço sim.

setembro 24, 2008

Se eu fosse menos desmedida e menos desnecessária

Se eu fosse menos desmedida e menos desnecessária, eu nunca ficaria bêbada. Não teria entrado para o clube dos haxinxins. Jamais teria dormido nos braços de Morfeu. Não teria me metido com os homens errados. Nunca teria perdido tempo me apaixonando perdidamente. Talvez me tivessem amado com sinceridade. Não teria tantos livros e os leria pela metade. Saberia que pesquisa fazer com tudo que passa pela minha cabeça. Teria dois livros publicados e um no prelo.

Em meu coração só passariam sentimentos sãos. Eu seria caridosa e menos arrogante. Só faria bondade a pessoas merecedoras. Nunca seria condescendente com os incompetentes e os incapazes. A contragosto deixaria de ser impiedosa com quem me apurrinha demais da conta. Não erraria sem rumo em busca de ser feliz. Teria planos bem feitos, passados a limpo e projetos executados. Nunca dormiria sem tomar banho. Meu cheirinho seria sempre bom. Seria rica, rodeada de amigos francos. Dançaria no quadro primavera de Botticelli, sem nunca ficar velha, nem gorda e nem feia.

setembro 22, 2008

Quando você não está por perto Meu mundo é um deserto no frio

Eu quero ficar nu diante dos teus olhos
Falar bem perto do seu ouvido
Decifrar tua alma e os gemidos
Temos tempo pra viver
Quero descobrir o amor de novo
Encontrar em alguém o que eu procuro
Livrar o amor do escuro
E destruir o muro
Que cerca meu coração
A vida me sorriu, permitiu você nascer
Estrela pra dar sorte
Por tudo que a gente fez
É pura tua luz, teu rosto, teu olhar
Quando você está longe
A mim só resta lembrar
Quando você não está por perto Meu mundo é um deserto no frio*


*o nome da música é "Quando você não está por perto" de Guto Goffi/Roberto Frejat

setembro 10, 2008

8 decisões para levar o momento seguidas de comentários do I Ching

1- Ter intransigência comigo mesma (conter e nutrir);
2- Cumprir minhas tarefas iminentes (hora de planejar, isso requer solidão, reunir forças para realizar o trabalho);
3- Pacto de silêncio (manter a quietude e o recolhimento);
4- Não procurar por ele em nenhum dos mundos conhecidos ou desconhecidos nem terreno, nem extraterreno, nem virtual (conter e manter-me quieta);
5- Não adoecer (não me afligir por causa da solidão);
6- Tentar me curar (esforço moral para manter a ordem);
7- Esquecer (renunciar);
8- Não me esquecer de respirar (calma interior e adaptação às circunstâncias).

Escrito numa noite de insônia.

setembro 08, 2008

"Esta história, este episódio, esta aventura dê a ela o nome que quiser".

Do grego: kategoría (acusação, atributo), pelo latim categoria. Conceitos gerais que exprimem as diversas relações que podemos estabelecer entre idéias ou fatos. Originalmente significa acusação, no sentido de atribuir um predicado a algo ou alguém. Aristóteles, o primeiro a usar o termo em sentido técnico, assim chamava “categoria do ser” aos predicados gerais atribuídos ao mesmo, correspondendo, então, as distintas classes do ser, distintas classes de predicados. A teoria das categorias, ou praedicamenta, iniciada pelo estagirita, prossegue - sofrendo constantes intervenções, acréscimos, depuramentos - pela filosofia grega e medieval até nossos dias. Do Wikipedia...
"Esta história, este episódio, esta aventura dê a ela o nome que quiser".
Pois é esta frase de Conrad, me aproprio dela doravante, se coloca no sentido de abrir mão de categorias, que me importa mesmo agora que acabou.

setembro 02, 2008

Estado de ânimo que vem e vai

"Back To Black" Amy Winehouse

He left no time to regret Kept his dick wet With his same old safe bet Me and my head high And my tears dry Get on without my guy You went back to what you knew So far removed from all that we went through And I tread a troubled track My odds are stacked I'll go back to black We only said good-bye with words I died a hundred times You go back to her And I go back to..... I go back to us I love you much It's not enough You love blow and I love puff And life is like a pipe And I'm a tiny penny rolling up the walls inside We only said goodbye with words I died a hundred times You go back to her And I go back to Black, black, black, black, black, black, black, I go back to I go back to We only said good-bye with words I died a hundred times You go back to her And I go back to We only said good-bye with words I died a hundred times You go back to her And I go back to black



Tradução pra ficar bem claro, embora sejam metáforas...

Ele não perdeu tempo se arrependendo E ainda molhado de sexo Fez o mesmo jogo de sempre E eu, chapada e sem forças pra chorar Sigo sem ele Você voltou pro mundo que conhece sem pensar nas coisas que passamos E eu vou pelo pior caminho Sem perspectivas Eu voltarei para o poço ** (varias expressões, na verdade: escuridão, vazio ou maconha)
Nos despedimos com palavras E essa dor me mata a toda hora Você volta pra ela E eu volto Eu volto pra nós Te amo demais Mas não é suficiente Você gosta de cheirar e eu de fumar E a vida é um grande canudo E eu sou uma moedinha rolando nas suas paredes Nos despedimos com palavras E essa dor me mata a toda hora Você volta pra ela
E eu volto Pro poço (pra escuridão ou pro vazio). ou a ser invisível...

julho 22, 2008



Pra Ser Só Minha Mulher
Otto canta (e eu não páro de ouvir, fiz uma mudança no final,,,)
Composição: Erasmo Carlos / Ronnie Von

Ah esse amor que me arrastaMe gasta e me faz sofrer. Mas me devolve a vida, Escondida Em quartos que eu não sei dormir.
Ah esse amor bandido, Contido, Quer me machucar. Mas só me traz verdades Que a idade toda não consegue dar.
Abra os braços pra me guardar, Que eu todo vou me entregar, Começo, meio e fim. E a minha cuca ruim. Aperte a minha mão, Esse caminho é a solução. Pra te levar se quiser, Pra ser só minha mulher.
Ah esse amor selvagem, Passagem pra loucura e pra dor. Mas eu confio na sorte. Eu sou forte como o bicho mais feroz. Ah esse amor aflito, Que eu grito e ninguém pode ouvir. Mas me renova os sonhos, Que eu componho em versos pra você dormir.

junho 06, 2008

Morar, mudar...estar em paz sobre a terra


Habitar, ser trazido à paz de um abrigo, diz: permanecer pacificado na liberdadede um pertencimento, resguardar cada coisa em sua essência. O traço fundamental do habitar é esse resguardo. O resguardo perpassa o habitar em toda a sua amplitude. Mostra-se tão logo nos dispomos a pensar que ser homem consiste em habitar e, isso, no sentido de um demorar-se dos mortais sobre essa terra. diz Heidegger

maio 20, 2008

marionete da emoção...qual a mão que manipula


autoria Maldoror
"A vida é uma grande encenação não sou bom ator quero sair de cena, parem a peça vou descer viver é uma grande mentira somos marionetes de um sistema viciado sou um mendigo enclausurado (...)
Hamlet vem me buscar na carruagem de sonho e melancolia sou um nada no seu tudo e você nada ...vou morrer afogado (.)"

março 29, 2008

Dont Panic Dont Panic Dont Panic



bones sinking like stones all that we fought for homes, places we’ve grown all of us are done for. but we live in a beautiful world, yeah we do yeah we do. we live in a beautiful world. oh all that I know, there’s nothing here to run from ‘cos yeah, everybody here’s got somebody to lean on. coldplay.

março 28, 2008

um cão abandonado

Haverá sempre, em algum lugar, um cão abandonado, que me impedirá de ser feliz..." Jean Anouilh
Homens, crianças, velhos e outros bichos abandonados , até criaturas imaginárias, com certeza haverá ainda muitos motivos para tristeza...

Leiam é triste: http://www.mundodosanimais.com/foruns/pelos-animais/o-'artista'-que-matou-um-cao-a-fome-vai-repetir-o-acto!-vamos-la-participar-(n/msg63768/#msg63768





março 08, 2008

LISTA DE PREFERÊNCIAS

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexeqüíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

(Poema de Brecht traduzido por Paulo César de Souza)








março 06, 2008

horror vacui

Vazio, vácuo, vão, dentro íntimo oco âmago buraco. Antro. Clausura claustrofobia. Fenda ventre gruta caverna. Vagina Vaga lacuna. Clarão. Espaço confinado entre limite e extremidade. Cerne. Não estar nem ser, dissipar-se em si. Rotura recesso. Silêncio. Eternidade. Hiato ponto pausa pouso interstício. Nada. Tudo céu tudo janela tudo porta, fresta greta brecha. Aberto por onde entrar passar através sair sumir desaparecer. Trevas. Cegueira. Solidão. Deserto ermo. Carência falta ausência pobreza. Branco imaculado limpo puro. Sem marca, sem destino. Destituído desterrado despaisado. Depois, presença prenhe: Os tempos mostram, marcada na carne, a dor que fala. Inútil não ser o que se é, no sentido de estar.

Inútil lutar para ser outro, inútil lançar pontes de palavras que chegam estilhaçadas ao outro, por que ele as filtra, penera, mesmo quando diz ouvi, mesmo quando diz entendi... A linguagem é o tempo todo tradução, inútil querer ser compreendido... Antes ser abraçado, enlaçado, devorado, antes talvez sejam bons a solidão, o silêncio e ainda a companhia dos bichos, pois só querem o calor de outro corpo junto ao seu. Esta, a linguagem outra não analítica, não simplificadora, não explicativa.
Isso tudo não quer dizer destino, a cargo de Deuses que foram para uma festa e não voltaram, isso tudo diz respeito a diálogo, a encontro, a nomear coisas, compartilhar assuntos...

* A partir de Simone Weil em “A Gravidade e a Graça”, diria que foi preciso uma representação do mundo em que houvesse vazio, a fim de que o mundo tivesse necessidade de Deus.
Novembro 2001

Burnt the fire of thine eyes?

Santa Cecilia de Stefano-Maderno & Willian Blake (Ardeu o fogo de teus olhos).


fevereiro 18, 2008

Well you know it's good for your head...

Nem escrevo mais, apenas fico ao seu lado, tédio. Fico ao teu lado sem beijo e sem cheiro.
Você diz que eu fiz um cerco ao seu redor, mas repare há uma saída pelo lado direito, por onde você pode dar sua volta no universo; você não vê a saída por que crê que as cercas são sólidas, mas repare elas são feitas de vapor das minhas lágrimas antigas e recentes; Eu fico ao seu lado. A música é boa, a conversa é fácil; embora seus olhos sejam tristes e jamais chorem por mim; As vezes você me faz rir as vezes me irrita muito; quando é assim, eu mesma quero sair pela porta afora; mas você segura meu braço, diz uma palavra e eu fico ao seu lado; não pela retórica nem pelo conteúdo; mas por que as palavras são certas;
No final das contas, as palavras estão demasiadamente ditas, fico ao seu lado...



Interlúdio (Cecília Meireles)
"As palavras estão muito ditas e o mundo muito pensado. Fico ao teu lado. Não me digas que há futuro nem passado. Deixa o presente — claro muro sem coisas escritas. Deixa o presente. Não fales, Não me expliques o presente, pois é tudo demasiado. Em águas de eternamente, o cometa dos meus males afunda, desarvorado. Fico ao teu lado."