Maio 29, 2012

Diário de uma professora tarja preta 1

Estas postagens serão denominadas diário de uma professora tarja preta: ex trotskista, ex anarquista, ex namorada, ex perdida, mãe tempo integral de 1900  a 1993, comunista naif, uma mera professorinha enfim. Trata-se de uma cronologia desse tempo de greve, da greve dos docentes de 2012, do meu ponto de vista.
A denominação faz referência a fala de Fabio Malini numa reunião ocorrida na Adufes (sexta 25/05/2012) em que ele menciona os trabalhadores tarja preta, aqueles que não tem mais tempo livre que não seja desapropriado, aqueles que tem sua alma sugada pelo capitalismo nesse estágio voraz, aqueles que sofrem roubo cotidiano do seu trabalho  no tempo integral: do seu tempo de vida, de sua imaginação, de sua criatividade, de sua conectividade, de sua afetividade, de sua atividade, de seu trânsito;
Semana passada, já há alguns dias desde a decretação da greve, participei de duas atividades realizadas como programação da greve.
Mas antes disso, nessa mesma semana, na segunda li um trabalho que estava adiando há um mês de meu orientando Jorge, já pela quarta vez leio o mesmo capítulo , parece que agora achamos o termo (o capítulo 1 está quase pronto). Também, já  na terça, terminei de ler (quase 200 páginas) de uma dissertação de uma orientanda que está concluindo para defesa final. Fiquei de ler a introdução e a conclusão no fim de semana. O que fiz no domingo parte da manhã e da tarde.
Ana Claudia marcou uma reunião dia 22 de maio, um debate sobre a greve no Auditório do Car Centro de Artes da Ufes, na quinta feira às 9h. Neste se discutiu comparativamente os principais pontos dos Planos de Carreira do Governo Federal e do Andes. Cheguei atrasada, peguei o bonde andando – mas fiquei muito tentada com a proposta de progressão e promoção do governo‑ já trabalho o suficiente para progredir a cada 12 meses. Chegarei meteoricamente ao topo da carreira. já que faço pesquisa e dou aula na pós-graduação, e dou mais de 12 horas na graduação, isso antes de completar 55 anos. Se, claro sobreviver às demandas da graduação, da pós e da Capes. Pois durou 24 anos seguir de auxiliar 1 a adjunto 4 até esse momento com regras vigentes. E confesso virei adulta dando aula numa universidade, mas também uma tarja preta – aviso, contudo, que não tomo remédio porque me esqueço e nem vou médico porque não dá tempo. Sou uma tarja preta virtual, quem olha pra mim vai dizer que preciso de tarja preta. Minha vó diz isso.
Na noite de quinta 24/05 fiquei lendo os textos do Andes e do governo enviados por Ana. Sexta dia 25 fui à reunião na Adufes, num debate que se chamou “Greve como instrumento de luta”. Há tempo não fazemos greve, pois furamos a de 2005, então parece que precisamos reaprender.
Entretanto, cheguei atrasada de novo na reunião de sexta na Adufes, entrei na sala quando um professor , peguei o discurso no meio ...: o PT se desencaminhou (ou algo assim), "era de se esperar porque está ou estava (eles podem ter se tornado outra coisa ‑ não sei se entendi bem) infestado de trotskistas, guerrilheiros arrependidos, sindicalistas desviados, intelectuais, pseudo-intelectuais e igrejeiros (...)". Este mesmo professor situou, citando Rosa de Luxemburgo, o trabalho docente como trabalho improdutivo, o servidor público como parasita, e lamentou ele mesmo ser um parasita,,, não sei se escutei tudo direitinho, se estou traduzindo com justiça a fala do professor.
Quase todas as falas seguintes dialogaram com esta diretriz de que o trabalho docente é improdutivo, parasitário – um biólogo até lembrou que há diferentes tipos de parasita um que usa seu corpo para se reproduzir o que vai acontecer mesmo depois de sua morte e um que precisa de você vivo para permanecer vivo. Outros preferiram falar mal do PT e dos igrejeiros, os demais pouparam os trotskistas.
Houve um o estudante de Economia Vitor que se declarou cristão e trotskista, que lembrou que não haverá uma revolução abrangente se não agregar cristãos. Também lembrou que no Grundise Marx indica a questão do trabalho imaterial, ou coisa assim.
O fato é que quando Malini se contrapôs, colocando a ideia que esta divisão entre trabalho produtivo e improdutivo não faz sentido numa época de predomínio do trabalho imaterial, alguém falou que esta tese é polêmica. Como concordei com Malini, devo dizer que realmente eu sou uma deslumbrada, como dizia Freda, a diretora do Car na época, quando eu tinha uns 18 anos de idade e me dizia trotskista-leninista, mas agora sou só uma naif,,, Sempre acho que não haverá luta, controvérsia, que o estado da arte tá “dominado”. Tá nada.

Nessa semana, ainda, orientei uma aluna de trabalho final de graduação, quarta-feira. Aluna da qual estava fugindo há meses, pois tinha perdido o trabalho dela. Agora, parece que ela Tetê encontrou o caminho para concluir este trabalho que já oriento há dois anos.
Fui, nessa quarta de manhã, a uma reunião na PRPPG, distribuímos projetos entre professores que se increveram no programa de Iniciação Científica na área de Ciências sociais Aplicadas, cada um deles fica com entre 3 a 5 projetos, a comissão fica com de 27 a 30 projetos. Hoje 29 de maio ainda não comecei a ler, meu plano hoje é concluir um artigo para um evento.
Na quinta, conversei com meus alunos de pg1 (trabalho final de graduação) sobre algumas atividades possíveis de levar na greve. E orientei uma aluna de mestrado na escada do prédio CEMUNI III, sobre como conduzir a primeira etapa do projeto de dissertação.
Resolvi alguns pepinos bem “brabos” – coisas que julgava impensáveis. Fui a uma reunião ligada a um trabalho de extensão lá em Paul, Vila Velha na quarta ‑ Lá soube que possivelmente estavam levantando minha "ficha" por causa desse trabalho com os catraeiros. Digo seguinte pode perguntar pra mim que eu passo a ficha e o curriculo Lattes. Ah, eu não bebo whisky "tá," porque, pelo menos antigamente, incorporava a pomba gira, que talvez agora vá "montar" outro cavalo ou mula. Sempre é melhor evitar a causa de um vexame.
Na sexta, fui ao Ocupar Gramados, um evento político recreativo promovido por alguns de meus alunos da arquitetura, a mais agradável de todas as atividades da semana. Teve samba, pagode, oficina de macenaria, moqueca de cação com camarão, entrega de bilhetes amorosos aos passantes. Alguns passageiros dos ônibus que passavam aplaudiram, foi ótimo!
No sábado bebi o vinho dos justos, comprado no supermercado, almocei com amigos, não fui a marcha das vadias, não fui ao Regional da Nair, ainda efleti sobre meu trabalho “improdutivo” e sobre o que eu ando fazendo com meu corpo e com minha vida.
Um colega meu me disse que eu tenho “furado greve.” Não estou. Estou colocando em dia trabalhos atrasados que são demasiados, usando a greve para fazer algum trabalho intelectual, já que nos dias comuns isso aqui se parece uma linha de montagem de uma fábrica taylorista-fordista.
Em vários dias da semana passada chorei de cansaço e da falta de respeito próprio que é submeter a todas as demandas institucionais que “aparecem”.
“Quando trabalhamos nossa alma se cansa como um corpo, pois não há liberdade suficiente para a alma, assim como não há salário suficiente para o corpo» Peter Pal Pelbart

Março 03, 2012

Teló, telos, nada dura

Sobre a polêmica do sucesso do Teló (telos? ironia). "Nada dura" já dizia o falecido Philllip Johnson, que em vida foi seguidor de Mies, um eterno moderno, (com seu parodiado "menos é mais") e depois aderiu ao posmodernismo (pastiche) aquela "marolinha" estilística dos anos 80.
Depois de quase 50 anos de vida, ando invertendo um velho ditado "a vida é longa e a arte é breve", não que se esteja fal...ando de arte no caso do Teló, mas já vi/ouvi sucessos grudentos que se foram pra sempre (alívio). Vi auge e queda do socialismo real; auges e quedas formidáveis do capitalismo (que podia cair de vez desta vez). Vi abstração e figurativismo trocarem de lugar no gosto da crítica mais de uma vez. Vi a arte e a história morrerem várias vezes. Já vi o moderno, mesmo odiado, dominar o mundo por alguns anos e ser acusado até hoje de todos os males das cidades. Já vi o pós modernismo durar menos de uma década e não servir pra na nada. Aprendi que não se pode contar vantagem de performances, desempenhos sexuais, físicos, políticos nem do sucesso de mercado, é tudo névoa. Não se pode muito menos ficar se achando em relação às nossas ações na vida (sempre se pode pisar na bola e errar irremediavelmente). No fim, talvez a vida e arte valham a pena exatamente por que não duram para sempre. Nem os imortais nem as montanhas duram a eternidade.
EXCETO O ROCK AND ROLL