Estas postagens serão denominadas diário de uma
professora tarja preta: ex trotskista, ex anarquista, ex namorada, ex perdida, mãe tempo integral de 1900 a 1993, comunista
naif, uma mera professorinha enfim. Trata-se de uma cronologia desse tempo de greve, da greve dos docentes de 2012, do meu ponto de vista.
A denominação faz
referência a fala de Fabio Malini numa reunião ocorrida na Adufes (sexta
25/05/2012) em que ele menciona os trabalhadores tarja preta, aqueles que não tem mais
tempo livre que não seja desapropriado, aqueles que tem sua alma sugada pelo
capitalismo nesse estágio voraz, aqueles que sofrem roubo cotidiano do seu
trabalho no tempo integral: do seu tempo de vida, de sua imaginação, de sua criatividade, de sua
conectividade, de sua afetividade, de sua atividade, de seu trânsito;
Semana passada, já há alguns dias desde a decretação da
greve, participei de duas atividades realizadas como programação da greve.
Mas antes disso, nessa mesma semana, na segunda li um
trabalho que estava adiando há um mês de meu orientando Jorge, já pela quarta
vez leio o mesmo capítulo , parece que agora achamos o termo (o capítulo 1 está
quase pronto). Também, já na terça, terminei de ler (quase 200 páginas) de uma
dissertação de uma orientanda que está concluindo para defesa final. Fiquei de
ler a introdução e a conclusão no fim de semana. O que fiz no domingo parte da
manhã e da tarde.
Ana Claudia marcou uma reunião dia 22 de maio, um debate sobre a greve no Auditório do Car Centro de Artes da Ufes, na quinta feira às
9h. Neste se discutiu comparativamente os principais pontos dos Planos de
Carreira do Governo Federal e do Andes. Cheguei atrasada, peguei o bonde
andando – mas fiquei muito tentada com a proposta de progressão e promoção do
governo‑ já trabalho o suficiente para progredir a cada 12 meses. Chegarei
meteoricamente ao topo da carreira. já que faço pesquisa e dou aula na
pós-graduação, e dou mais de 12 horas na graduação, isso antes de completar 55 anos. Se, claro sobreviver às demandas da
graduação, da pós e da Capes. Pois durou 24 anos seguir de auxiliar 1 a adjunto
4 até esse momento com regras vigentes. E confesso virei adulta dando aula numa
universidade, mas também uma tarja preta – aviso, contudo, que não tomo remédio
porque me esqueço e nem vou médico porque não dá tempo. Sou uma tarja preta virtual, quem olha pra mim vai dizer que
preciso de tarja preta. Minha vó diz isso.
Na noite de
quinta 24/05 fiquei lendo os textos do Andes e do governo enviados por Ana.
Sexta dia 25 fui à reunião na Adufes, num debate que se chamou “Greve como
instrumento de luta”. Há tempo não fazemos greve, pois furamos a de 2005, então
parece que precisamos reaprender.
Entretanto, cheguei atrasada de novo na reunião de sexta na Adufes, entrei na sala
quando um professor , peguei o discurso no meio ...: o PT se desencaminhou (ou algo assim), "era de
se esperar porque está ou estava (eles podem ter se tornado outra coisa ‑ não
sei se entendi bem) infestado de trotskistas, guerrilheiros arrependidos,
sindicalistas desviados, intelectuais, pseudo-intelectuais e igrejeiros (...)". Este
mesmo professor situou, citando Rosa de Luxemburgo, o trabalho docente como
trabalho improdutivo, o servidor público como parasita, e lamentou ele mesmo ser um
parasita,,, não sei se escutei tudo direitinho, se estou traduzindo com justiça a fala
do professor.
Quase todas as falas seguintes dialogaram com esta
diretriz de que o trabalho docente é improdutivo, parasitário – um biólogo até
lembrou que há diferentes tipos de parasita um que usa seu corpo para se
reproduzir o que vai acontecer mesmo depois de sua morte e um que precisa de
você vivo para permanecer vivo. Outros preferiram falar mal do PT e dos igrejeiros, os demais pouparam os trotskistas.
Houve um o estudante de Economia Vitor que se declarou cristão e
trotskista, que lembrou que não haverá uma revolução abrangente se não
agregar cristãos. Também lembrou que no Grundise Marx indica a questão do
trabalho imaterial, ou coisa assim.
O fato é que quando Malini se contrapôs, colocando
a ideia que esta divisão entre trabalho produtivo e improdutivo não faz sentido
numa época de predomínio do trabalho imaterial, alguém falou que esta tese é
polêmica. Como concordei com Malini, devo dizer que realmente eu sou uma deslumbrada,
como dizia Freda, a diretora do Car na época, quando eu tinha uns 18 anos de idade e me dizia trotskista-leninista,
mas agora sou só uma naif,,, Sempre acho que não haverá luta, controvérsia, que o estado da arte tá “dominado”.
Tá nada.
Nessa semana, ainda, orientei uma aluna de trabalho
final de graduação, quarta-feira. Aluna da qual estava fugindo há meses, pois
tinha perdido o trabalho dela. Agora, parece que ela Tetê encontrou o caminho
para concluir este trabalho que já oriento há dois anos.
Fui, nessa quarta de manhã, a uma reunião na PRPPG, distribuímos projetos
entre professores que se increveram no programa de Iniciação Científica na área de Ciências sociais Aplicadas, cada
um deles fica com entre 3 a 5 projetos, a comissão fica com de 27 a 30
projetos. Hoje 29 de maio ainda não comecei a ler, meu plano hoje é concluir um
artigo para um evento.
Na quinta, conversei com meus alunos de pg1
(trabalho final de graduação) sobre algumas atividades possíveis de levar na
greve. E orientei uma aluna de mestrado na escada do prédio CEMUNI III, sobre
como conduzir a primeira etapa do projeto de dissertação.
Resolvi alguns pepinos bem “brabos” – coisas que
julgava impensáveis. Fui a uma reunião ligada a um trabalho de extensão lá em
Paul, Vila Velha na quarta ‑ Lá soube que possivelmente estavam levantando
minha "ficha" por causa desse trabalho com os catraeiros. Digo seguinte pode perguntar pra mim que eu passo a ficha e o curriculo Lattes. Ah, eu não bebo whisky "tá," porque, pelo menos antigamente, incorporava a pomba gira, que talvez agora vá "montar" outro cavalo ou mula. Sempre é melhor evitar a causa de um vexame.
Na sexta, fui ao Ocupar
Gramados, um evento político recreativo promovido por alguns de meus alunos da arquitetura, a
mais agradável de todas as atividades da semana. Teve samba, pagode, oficina de macenaria, moqueca de cação com camarão, entrega de bilhetes amorosos aos passantes. Alguns passageiros dos ônibus que passavam aplaudiram, foi ótimo!
No sábado bebi o vinho dos justos, comprado no supermercado, almocei com
amigos, não fui a marcha das vadias, não fui ao Regional da Nair, ainda efleti
sobre meu trabalho “improdutivo” e sobre o que eu ando fazendo com meu corpo e com minha vida.
Um colega meu me disse que eu tenho “furado greve.” Não
estou. Estou colocando em dia trabalhos atrasados que são demasiados, usando a greve para fazer
algum trabalho intelectual, já que nos dias comuns isso aqui se parece uma
linha de montagem de uma fábrica taylorista-fordista.
Em vários dias da semana passada chorei de cansaço e da
falta de respeito próprio que é submeter a todas as demandas institucionais que “aparecem”.
“Quando trabalhamos nossa alma se cansa como um corpo, pois não há liberdade
suficiente para a alma, assim como não há salário suficiente para o corpo»
Peter Pal Pelbart
